Gerente de Sustentabilidade e Pesquisadora em Sustentabilidade, respectivamente, da Suzano
O setor florestal tem um papel intrínseco na conservação dos recursos hídricos no Brasil. Não há dúvidas de que a relação entre árvores, solo e água está no centro do debate sobre sustentabilidade. Hoje, torna-se cada vez mais evidente que a produtividade e a resiliência das florestas só poderão ser mantidas se tratarmos a água como um ativo estratégico, especialmente em contextos de expansão de fronteiras produtivas e de intensificação de mudanças climáticas.
Nesse cenário, a pergunta que precisa orientar as discussões e tomadas de decisão é clara: como podemos, enquanto setor, manejar nossas florestas, plantadas e nativas, para termos bacias hidrográficas com maior resiliência hídrica?
Para responder a essa pergunta, é necessário compreender a paisagem sob a perspectiva da água: ir além da visão tradicional e enxergar as fazendas e áreas produtivas como partes de uma bacia hidrográfica.
Como os fluxos hídricos não se limitam por cercas ou divisas entre propriedades, a água deve ser tratada como um recurso compartilhado entre todos os usuários da bacia, um princípio básico de gestão responsável do território, que conecta diferentes interesses no uso da paisagem em torno de um objetivo comum: a manutenção da vida.
Para facilitar a compreensão, a bacia hidrográfica é a área que recebe a água da chuva e a conduz para um ponto de saída do rio. Ao funcionar como um sistema com entradas (chuva) e saídas (vazão e usos), permite calcular o balanço hídrico e entender como o uso do solo e as práticas de manejo afetam a quantidade e a qualidade da água. Por ser uma unidade natural da paisagem, é a escala mais adequada para o planejamento e a gestão dos recursos hídricos no setor florestal.
Realizar essa mudança de mindset, ou seja, planejar florestas compreendendo o talhão como parte de uma bacia hidrográfica, é, na nossa visão, uma condição fundamental para avançarmos rumo à sustentabilidade ambiental e hídrica. E, dessa forma, fortalecermos a resiliência da produtividade florestal em ambientes cada vez mais restritivos. Ignorar essa perspectiva pode comprometer, no médio e longo prazo, a sustentabilidade e a segurança das florestas.
Além de influenciar o desempenho das próprias florestas, o planejamento da paisagem também afeta diretamente os usuários que vivem a jusante das bacias, podendo inclusive impactar a licença social para operar — especialmente em áreas sensíveis ou em anos climáticos atípicos. Esse risco tende a se tornar mais frequente diante da intensificação dos eventos associados às mudanças climáticas.
Em 2021, a Suzano assumiu metas de longo prazo alinhadas aos ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) da ONU, entre elas, o compromisso de aumentar a disponibilidade hídrica em 44 bacias hidrográficas críticas por meio da implantação de técnicas de manejo florestal diferenciadas nesses locais.
Sabemos que os desafios hídricos estão cada vez mais presentes no País, por isso, mapeamos, nas áreas de florestas, os locais mais críticos do ponto de vista climático e hídrico, com o objetivo de ampliar a oferta de água em áreas sensíveis por meio de práticas sustentáveis de manejo florestal.
O atingimento dessa meta exigiu uma mudança cultural dentro da própria empresa e contou com o apoio de diversas diretorias e gerências. Como resultado desse processo, a bacia hidrográfica crítica passou a ser incorporada ao planejamento estratégico da Suzano, e os talhões de floresta plantada passaram a ser desenhados considerando a sua inserção nas bacias hidrográficas. Esse avanço posiciona a Suzano como uma referência na gestão integrada da água na paisagem florestal.
A indústria de celulose no Brasil, ciente da importância de considerar a bacia hidrográfica como uma unidade natural de planejamento, adota amplamente o sistema de mosaico no uso do solo – no qual áreas de conservação se mantêm intercaladas às áreas de produção. A proporção entre floresta nativa e plantada nas bacias, somada à preservação das áreas ao redor dos cursos d’água, é fundamental para promover a qualidade da água, a resiliência das bacias e a manutenção dos solos. Além disso, a conservação das áreas nativas contribui para a manutenção da biodiversidade nas paisagens florestais, protegendo espécies endêmicas e ameaçadas de extinção.
Diante da importância de compreender as relações e dinâmicas nas bacias hidrográficas, acompanhamos e celebramos o avanço de pesquisas de monitoramento hidrológico voltadas à gestão dos recursos hídricos. Esses estudos têm servido de insumo para o debate técnico e suporte às decisões relacionadas ao manejo florestal e seus efeitos sobre a água.
O Projeto Microbacias, conduzido pela Suzano há mais de três décadas, demonstra um compromisso consistente com a ciência e transparência. Iniciado com uma microbacia experimental na unidade de Aracruz-ES, o projeto hoje abrange 15 microbacias com monitoramento frequente da vazão em todas as unidades e biomas onde a empresa atua. O acompanhamento do lençol freático e da umidade do solo complementa esse esforço para compreender como o manejo florestal influencia a dinâmica da água e fornece informações essenciais para o aprimoramento das práticas ao longo do tempo.
Além disso, a Suzano participa do monitoramento corporativo do setor realizado pelo PROMAB (Programa de Monitoramento de Microbacias/IPEF), no qual temos avançado nas pesquisas sobre o efeito do manejo florestal na resiliência hídrica das bacias em diferentes regiões do País.
Em outra iniciativa, ainda recente, a Suzano desenvolveu, junto à startup Marvin Blue, uma plataforma para o monitoramento do uso da água por sensoriamento remoto. A solução é inédita no setor florestal brasileiro e amplia a capacidade de tomada de decisão, baseada em dados, para promover o uso sustentável da água na floresta.
Por meio de imagens de satélite e de indicadores claros, a plataforma permite monitorar tanto as bacias críticas quanto as demais bacias com atuação pela Suzano ao longo do tempo e do espaço, ampliando significativamente o poder do monitoramento hídrico, além de consolidar uma ferramenta de gestão da água inédita da floresta no Brasil.
Incorporar a bacia hidrográfica ao planejamento da empresa representa, em nossa visão, um ponto de inflexão necessário para que o setor avance de forma consistente nas discussões sobre água. É, também, um passo decisivo para compreender como a própria configuração da paisagem pode fortalecer a resiliência dos plantios diante de eventos climáticos cada vez mais adversos.
Por isso, na Suzano, estamos avançando de maneira consistente para que nossos compromissos, metas e direcionadores de sustentabilidade tenham a bacia hidrográfica como unidade base de planejamento. Acreditamos que esse movimento deva ser ampliado pelo setor florestal de modo a qualificar decisões e integrar, na mesma escala, biodiversidade, aspectos sociais e questões ambientais, uma condição essencial para qualquer empresa que pretenda ser protagonista na agenda de sustentabilidade no Brasil e no mundo.