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Sebastião Venâncio Martins

Professor do Departamento de Engenharia Florestal da UF-Viçosa

OpCP83

Avanços e desafios na recuperação ambiental da bacia do rio Doce
A minha relação com a bacia do rio Doce caminha por mais de três décadas, como professor e pesquisador na Universidade Federal de Viçosa e como cidadão residente em Viçosa, município inserido nesta grande e importante bacia hidrográfica.
 
Muitos anos antes do rompimento da barragem de Fundão, ocorrido em 2015 em Mariana, MG, já desenvolvíamos pesquisas sobre ecologia, botânica e recuperação ambiental na bacia do rio Doce. Nossos projetos de pesquisas, visitas técnicas, treinamentos e orientações de estudantes, pré-rompimento da barragem, foram conduzidos em diversos municípios inseridos nesta bacia, em Minas Gerais e no Espírito Santo. 

Sempre adotei nas minhas pesquisas, a necessidade de ir a campo conhecer a realidade das áreas de estudo, nestas “andanças” pela bacia do rio Doce, embrenhando no que restou das suas matas ciliares, nas barrancas erodidas de seus rios e riachos e nas suas pastagens degradadas. Assim, posso afirmar que a bacia do Doce, infelizmente, já sofria de um processo de intensa degradação ambiental muito antes de ser atingida pelos rejeitos de Fundão.

Historicamente, a bacia do rio Doce passou por um processo de degradação pelos garimpos de ouro, que, além de terem removido boa parte das matas ciliares, também causaram erosão nas margens e assoreamentos em determinados pontos dos rios Doce, Piranga, Gualaxo do Norte, entre outros. Outras atividades no passado, como desmatamentos para conversão de florestas em pastagens, agricultura e expansão urbana, também contribuíram para este cenário de degradação da bacia.

A partir do rompimento da barragem de Fundão em 2015, que resultou em um grande impacto ambiental nesta já tão sofrida bacia, um audacioso processo de recuperação ambiental ganhou força e aos poucos vem modificando as paisagens deste enorme território.

Um dos primeiros desafios para a recuperação das áreas atingidas foi criar condições para a estabilização do rejeito depositado às margens dos rios. Assim, as primeiras iniciativas de recuperação das Áreas de Preservação Permanente (APPs) tiveram como foco a revegetação emergencial realizada pela Fundação Renova, na qual foram realizadas obras de sistematização de terreno, com aplicação de técnicas de bioengenharia e plantios de plantas herbáceas de adubos verdes. 

Estas ações emergenciais foram extremamente importantes para a readequação e estabilização de margens de cursos d’água, para que o rejeito depositado não voltasse para o leito dos rios e seus tributários.

Após esta primeira fase de reabilitação das áreas atingidas, tomou curso a restauração florestal das APPs, visando a recuperação das matas ciliares. Neste cenário, em março de 2018 iniciei uma parceria com a extinta Fundação Renova. O desafio foi grande, pois, embora já tivesse coordenado vários projetos de restauração de matas ciliares, a situação de implantar floresta sobre depósitos de rejeito de mineração era inédita no Brasil. E havia um desafio maior a ser enfrentado: superar o paradigma que existia desde 2015, de que o rejeito depositado não permitia a regeneração natural e nem o crescimento de mudas.

Nossas primeiras pesquisas revelaram que o rejeito não impedia o crescimento das mudas, uma vez plantadas em berços com dimensões adequadas e recebido adubação química e orgânica precisas, e que em alguns locais, mais próximos de fragmentos florestais, havia formação de banco de sementes e forte regeneração natural. 

Cabe destacar que três anos após a deposição, o rejeito já não era mais o mesmo, por ter recebido as ações emergenciais, como plantio de adubos verdes e outras. Aos poucos o rejeito foi se transformando em um tecnosolo, onde as condições químicas, físicas e biológicas estão progressivamente melhorando, o que facilita a sobrevivência e crescimento da vegetação.

Neste cenário, este primeiro projeto que coordenei em Mariana, MG, e região teve duração de quatro anos e possibilitou a implantação de experimentos de restauração florestal, orientações técnicas e treinamentos das equipes da Fundação Renova e empresas parceiras, emissão de laudos técnicos e muitas visitas de campo. Entre as orientações técnicas, cabe destacar a revisão periódica de listas de espécies para os plantios de restauração, o que permitiu uma filtragem para que apenas espécies nativas com ocorrência na região fossem utilizadas, e também a indicação de espécies de diferentes grupos ecológicos, de atratividade à fauna e de adaptação a níveis de umidade do solo.

Além de toda a contribuição com a prática da restauração, o projeto também viabilizou o treinamento de estudantes da UFV em nível de Iniciação Científica, Mestrado e Pós-doutorado, resultando em dissertações, artigos publicados em revistas nacionais e internacionais e capítulos de livro. Essas publicações e as palestras que ministrei em importantes eventos de ecologia e de restauração ecológica contribuíram em muito para dar mais visibilidade às ações que vinham sendo realizadas para a recuperação ambiental da bacia do rio Doce.

Atualmente, coordeno um segundo projeto, agora em parceria com a mineradora Samarco, no qual novos experimentos de restauração ecológica de APPs têm sido implantados em Mariana e Barra Longa, MG, além da continuidade dos estudos realizados no primeiro projeto, contando novamente com uma excelente equipe vinculada ao LARF – Laboratório de Restauração Florestal da UFV.

Nesta nova fase da nossa contribuição com a recuperação da bacia do rio Doce, estamos desenvolvendo, através de experimentos, novas tecnologias para superação de um dos maiores desafios da restauração florestal das APPs não apenas da região de Mariana, mas também de outras regiões do Brasil, que é a entrada de gado bovino e de equinos de terceiros nas áreas com plantios de mudas. Em outra frente, também estamos testando e implantando técnicas para enriquecimento de áreas em processo de restauração florestal. 

Em 2024 foi estabelecida a Repactuação, através do Novo Acordo do Rio Doce, no qual as ações passam a ser realizadas pela Samarco, para na área ambiental promover o reflorestamento de 50 mil hectares de florestas nativas, a conclusão da recuperação de 5 mil nascentes, a restauração de margens e do ambiente aquático e da qualidade da água, entre outras.

Embora a restauração das APPs da bacia do rio Doce se configure como um dos maiores projetos de restauração em larga escala do Brasil, as ações e investimentos não param por aí, outras frentes têm sido conduzidas pela empresa, como a recuperação da qualidade da água, através do monitoramento em diferentes pontos dos rios, e o monitoramento de fauna e da flora.

Este conjunto de ações e tecnologias implantadas ao longo destes 10 anos, desde o rompimento da barragem, sem dúvida tem mudado as paisagens do território, possibilitando o retorno das matas ciliares, tanto em áreas diretamente atingidas como naquelas em que as florestas já não existiam devido a um histórico antigo de uso das APPs. E, neste contexto, tem sido uma grande satisfação poder contribuir com todo este processo de recuperação ambiental de uma das mais importantes bacias hidrográficas do Brasil.