Gerente de Sustentabilidade e Pesquisador em Sustentabilidade, respectivamente, da Suzano
Chamar plantios de eucalipto de “desertos verdes” virou um atalho retórico. Funciona em manchetes, mas falha conceitualmente ao ignorar a configuração da paisagem na qual o eucalipto está inserido. Partindo do princípio, quem maneja florestas plantadas no Brasil cumpre exigências legais que determinam a manutenção de parte da vegetação nativa da propriedade, com as chamadas APPs (Áreas de Preservação Permanente) e RL (Reservas Legais).
Desta forma, ao atender à legislação, cria-se na paisagem um manejo produtivo em mosaico que alterna talhões de plantio e fragmentos nativos. Esse arranjo amplia a conectividade e torna a paisagem mais permeável à fauna, onde muitas empresas do setor florestal vão ainda além do mínimo legal. A Suzano, por exemplo, mantém protegida 40% da área total sob sua responsabilidade – dez pontos percentuais acima do recomendado pelo Marco Global da Biodiversidade, estabelecido em 2022 na COP da Biodiversidade.
Um mecanismo voluntário do setor privado no Brasil em prol da conservação é a criação de RPPNs (Reservas Particulares do Patrimônio Natural), que asseguram proteção da biodiversidade de forma perpétua, mesmo que a propriedade seja, eventualmente, vendida. Para além disso, o setor dispõe de instrumentos que garantem o uso responsável dos recursos naturais.
Um dos principais é o padrão FSC (Forest Stewardship Council), que certifica o manejo florestal e a cadeia de custódia. Entre seus requisitos está a identificação de áreas relevantes para conservação, que devem ser manejadas e monitoradas para conectar ecossistemas frágeis, proteger espécies ameaçadas e manter serviços ecossistêmicos essenciais.
Empresas certificadas pelo FSC mantêm monitoramentos de biodiversidade em larga escala. Em áreas da Suzano, por exemplo, levantamentos registraram o equivalente a 40%, 68% e 70% da riqueza de aves identificadas nos biomas Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica, respectivamente, demonstrando a relevância da contribuição da conservação dessas áreas.
Mas isso não é suficiente. Para proteger a biodiversidade de forma efetiva, a conectividade de habitats precisa orientar a próxima década. Não basta apenas cercar áreas naturais, é preciso atuar em rede para conectá-las e mantê-las. Nesse contexto, a Suzano assumiu o compromisso de conectar 500 mil hectares na Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica até 2030, por meio de corredores ecológicos que combinam restauração e modelos produtivos mais biodiversos. Em 2024, mais de 100 mil hectares já estavam integrados. Reduzir a fragmentação, uma das maiores pressões sobre a biodiversidade, significa enfrentar diretamente a raiz da perda de espécies.
O impacto dessa estratégia se amplia com a criação de novas RPPNs. Constituída em 2025, a RPPN Nova Descoberta reúne 5.800 hectares em uma zona estratégica de transição Cerrado–Amazônia, no Maranhão, integrando o Mosaico do Gurupi e fortalecendo a proteção de ecossistemas pressionados, onde a conexão entre fragmentos é decisiva para espécies sensíveis. Trata-se da maior RPPN do estado e da Suzano, a ser monitorada pelo Instituto Ecofuturo, organização sem fins lucrativos criada e mantida pela Suzano. O Ecofuturo administra, monitora e gera recomendações de manejo específicas para as áreas naturais protegidas da Suzano, além de realizar o monitoramento da biodiversidade e a avaliação da efetividade de sua conservação. Entre elas, o Parque das Neblinas, uma área de 7 mil hectares localizada entre os municípios de Mogi das Cruzes e Bertioga, em São Paulo.
E são nesses ambientes em que monitorar biodiversidade em larga escala se torna um grande desafio, como na transição Cerrado Amazônia onde foi criada a RPPN Nova Descoberta, que a tecnologia vem abrindo caminhos e nivelando o jogo. Gravações acústicas com inteligência artificial, drones com sensores termais, análises de eDNA (DNA ambiental) e armadilhas fotográficas ampliam a detecção de espécies e produzem séries históricas robustas. A gestão deixa o campo da intuição e subjetividade e passa a operar cada vez mais com base em evidências e recomendações com base em dados.
Naturalmente, existem dilemas legítimos. A intensificação produtiva exige vigilância constante; corredores ecológicos demandam governança local; e projetos de restauração precisam ser funcionais, não apenas estéticos. Por isso, o setor fortalece parcerias com universidades, ONGs e organismos internacionais para validar práticas e ajustar rotas e, principalmente, para que o manejo do eucalipto acompanhe essa evolução. Avanços como controle biológico ampliado, seleção de clones mais resistentes e intervenções silviculturais mais precisas reduzem o uso de químicos, preservam a teia trófica e fortalecem polinizadores — fundamentais para o equilíbrio dos ecossistemas e para a agricultura.
A experiência acumulada pela Suzano em mais de 35 anos de monitoramento de biodiversidade gera uma base robusta de dados que contribui para calibrar e aprimorar ferramentas internacionais de avaliação. Em parceria com a IUCN (International Union for Conservation of Nature), a Suzano utiliza métodos baseados na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas para avaliar o estado de conservação das espécies e aplicar métricas que estimam como ações de manejo podem reduzir o risco de extinção em seu próprio habitat.
A agenda de transparência também vem acelerando mudanças. A Taskforce on Nature-related Financial Disclosures (TNFD) orienta empresas a avaliar e divulgar suas dependências, impactos, riscos e oportunidades sobre a natureza. Nesse cenário, a combinação entre dados históricos de monitoramento e ferramentas globais de avaliação fortalece a capacidade de demonstrar, com maior transparência e credibilidade, a efetividade das ações de conservação, contribuindo para posicionar os empreendimentos em ambientes globais que, cada vez mais, comparam desempenho ESG e direcionam investimentos para resultados nature-positive.
O que emerge dessa agenda é um paradoxo fértil: a “floresta mais bio” pode ser justamente aquela planejada com práticas científicas, com conectividade, monitoramento e visão de paisagem. Seu sucesso depende de ecossistemas saudáveis, e, por isso, o setor investe para restaurá-los, conectá-los e monitorá-los. Quando corredores ecológicos ligam parques e terras indígenas, quando uma RPPN fecha uma brecha no Arco do Desmatamento, quando sensores confirmam fauna ativa em áreas produtivas e quando métricas globais indicam onde um real investido reduz mais o risco de extinção, entramos no campo da evidência, que é terreno fértil para gerar recomendações claras para a sustentabilidade da vida.
Se queremos metas de biodiversidade que realmente saiam do papel, precisamos nos apoiar em três pilares: 1) monitoramento robusto para geração de métricas, transparência e recomendações claras aplicadas à conservação; 2) manejo na escala da paisagem que priorize conectividade; e 3) permanência de áreas naturais protegidas funcionais do ponto de vista da conservação da biodiversidade.
Talvez seja hora de aposentar a caricatura da “monocultura” ou de “desertos verdes”, ignorando a realidade da composição das paisagens no Brasil, e reconhecer um fato simples: as florestas plantadas, quando bem planejadas e manejadas, têm um papel fundamental na conservação da biodiversidade — e a vida dentro delas é algo intrínseco e evidente.