O momento que o Brasil esperava
Poucas vezes na história recente, o Brasil esteve tão bem-posicionado para liderar uma agenda global. Com a COP30 ocorrida em Belém, em novembro de 2026, o mundo volta os olhos para a Amazônia — mas a verdadeira oportunidade brasileira vai muito além da floresta nativa. O Brasil é hoje o maior produtor mundial de florestas plantadas tropicais e exóticas de alta produtividade, e esse ativo subestimado pode ser o alicerce da descarbonização de setores inteiros da economia global.
Florestas plantadas não são frequentemente o centro das atenções quando se fala em soluções climáticas. O debate costuma girar em torno da preservação de florestas nativas, do desmatamento evitado e das grandes reservas de biodiversidade. Mas há um capítulo igualmente essencial nessa história: o da biomassa renovável cultivada com rigor técnico, capaz de sequestrar carbono em larga escala, substituir combustíveis fósseis e gerar renda em regiões que precisam de desenvolvimento.
O pioneirismo que o Brasil já tem
Antes de falar do futuro, vale revisitar o passado — e o Grupo Plantar tem muito a contar. No início dos anos 2000, quando o Protocolo de Quioto começava a ganhar forma e o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) era ainda uma novidade institucional, o Grupo Plantar foi pioneiro ao desenvolver um dos primeiros projetos de crédito de carbono registrados no mundo.
O projeto não nasceu de uma tendência de mercado, mas de uma convicção técnica: o carvão vegetal produzido a partir de eucalipto plantado é um substituto eficiente e renovável para o carvão mineral na produção de ferro-gusa. Ao longo de décadas, essa substituição evitou a emissão de milhões de toneladas de CO? que, de outra forma, teriam sido lançadas na atmosfera pelas chaminés das siderúrgicas.
Esse pioneirismo trouxe um aprendizado que vai muito além dos créditos gerados: ele revelou a enorme complexidade de quantificar, monitorar, reportar e verificar — o que hoje chamamos de MRV — as emissões e remoções associadas a projetos climáticos de base florestal. Aprendemos, na prática, que não basta plantar. É preciso medir, e medir bem.
A floresta que sequestra e transforma
Uma floresta plantada de eucalipto pode sequestrar entre 15 e 25 toneladas de CO?eq por hectare ao ano, dependendo das condições edafoclimáticas (tais como o clima, o relevo, a litologia, a temperatura, a umidade do ar, a radiação, o tipo de solo, o vento, a composição atmosférica e a precipitação pluvial) e do manejo adotado. Esse número é expressivo: um único hectare bem manejado pode neutralizar as emissões anuais de mais de dez brasileiros.
Mas o papel das florestas plantadas vai além do sequestro imediato. A madeira que cresce nessas florestas é matéria-prima para carvão vegetal, celulose, papel, bioenergia e biocombustíveis. Cada produto derivado representa uma forma diferente de armazenar carbono biogênico — retirado da atmosfera pelas árvores e transformado em algo útil à sociedade. Quando incorporado em produtos duráveis, o efeito climático se prolonga muito além do ciclo florestal.
É fundamental sublinhar que florestas plantadas e florestas nativas não são concorrentes: são complementares. As primeiras abastecem a demanda por madeira e biomassa com alta produtividade em áreas já antropizadas, aliviando a pressão sobre os ecossistemas nativos. As segundas preservam biodiversidade, serviços ecossistêmicos e o imenso estoque de carbono da vegetação original.
A crise do REDD+ e a importância da restauração florestal
O mercado de carbono florestal atravessou, nos últimos anos, uma crise profunda de credibilidade. O mecanismo REDD+ — voltado à redução de emissões por desmatamento e degradação — foi alvo de escrutínio científico e investigativo crescente. O problema é, em grande parte, metodológico: a construção de linhas de base prospectivas, elaboradas pelo próprio desenvolvedor do projeto, criou incentivos estruturais para a superestimação do desmatamento que seria evitado. A adicionalidade — a garantia de que o carbono contabilizado não teria sido preservado sem a intervenção — revelou-se difícil de comprovar em contextos de governança fundiária frágil. Casos de fraude e geração de créditos sem lastro real abalaram a confiança de compradores corporativos em todo o mundo. A resposta a essa crise não passa pelo abandono dos projetos florestais, mas pela sua qualificação.
Os projetos de restauração e recuperação florestal — com espécies nativas ou plantadas em áreas degradadas — oferecem uma vantagem estrutural fundamental: o carbono sequestrado é mensurável, incremental e verificável desde o primeiro dia. Não há linha de base especulativa — há uma área degradada, um plano de recuperação e uma trajetória de biomassa monitorada continuamente. A adicionalidade é inerente à intervenção.
Do ponto de vista técnico, a restauração florestal em escala exige metodologias sofisticadas: seleção de espécies compatíveis com o bioma e a função ecológica desejada, análise de capacidade de suporte do solo, planejamento de conectividade de fragmentos, controle de espécies invasoras e protocolos de monitoramento da sucessão ecológica ao longo do tempo. Em áreas de preservação permanente e reservas legais, a restauração com espécies nativas é obrigatória pela legislação brasileira — o que coloca o País em posição única para gerar créditos de remoção de alta integridade dentro do novo marco regulatório do carbono.
O SBCE e o novo imperativo do MRV
Em dezembro de 2024, o Brasil deu um passo histórico com a sanção da Lei nº 15.042, que institui o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SBCE). Inspirado no modelo cap-and-trade, o sistema estabelece tetos obrigatórios de emissão para setores de alta intensidade de carbono e cria Certificados de Redução ou Remoção Verificada de Emissões (CRVEs), gerados por projetos com MRV (Measurement, Reporting and Verification) adequado — o que abre uma ponte direta entre projetos florestais de restauração e a demanda de compliance das indústrias reguladas. A regulamentação infralegal está em construção, com prazo para conclusão até o final de 2026. O que já está claro na lei é que sem MRV não há participação no mercado: mensurar, relatar e verificar emissões com dados rastreáveis é requisito legal, não diferencial competitivo.
MRV além da floresta: da mineração à siderurgia
A exigência de MRV para o SBCE vai muito além do setor florestal. Operadores regulados precisarão elaborar planos de monitoramento e relatórios periódicos de emissões ao órgão gestor do sistema. Para a mineração — setor que enfrenta uma das transições mais complexas da agenda climática, dado que suas operações envolvem emissões distribuídas ao longo de toda a cadeia, do desmonte de rocha ao processamento e ao transporte —, o MRV representa um desafio operacional de primeira ordem. Quantificar emissões de processos industriais heterogêneos, com múltiplos vetores energéticos e cadeias de custódia complexas, exige ferramentas capazes de integrar dados de fontes muito distintas em um único inventário auditável.
O mesmo nível de complexidade se aplica à siderurgia, o maior cliente do carvão vegetal de origem florestal, e aos setores químico e de fertilizantes. Para todos eles, o Escopo 3 — as emissões indiretas geradas ao longo da cadeia de valor — representa a maior parcela do inventário total e, também, a mais difícil de mensurar. O mecanismo CBAM europeu, que prevê a taxação de carbono embutido nas importações para o bloco, torna essa demanda ainda mais urgente: exportadores brasileiros precisarão demonstrar com dados verificáveis o perfil de emissões de seus produtos desde a extração da matéria-prima até o produto final.
Nesse contexto, plataformas digitais de gestão de inventários de GEE tornaram-se infraestrutura essencial. Sistemas que consolidam dados operacionais, fatores de emissão e cadeias de custódia em trilhas de auditoria estruturadas — compatíveis com o GHG Protocol, a ISO 14064 e os padrões de análise de ciclo de vida (ACV/LCA) — permitem que empresas de setores intensivos em carbono gerenciem suas emissões com o mesmo rigor com que gerenciam seus custos de produção. O que antes era tarefa de consultoria anual torna-se processo contínuo, rastreável e integrável aos sistemas corporativos.
Do conhecimento florestal à plataforma: tecnologia com raízes no campo
Toda essa trajetória — do pioneirismo em projetos de MDL nos anos 2000 até o novo marco regulatório do SBCE — levou o Grupo Plantar a investir na sistematização do conhecimento acumulado em décadas de atuação em projetos de ação climática e gestão de carbono. Nesse contexto nasce a Onearth ESG, iniciativa que organiza essa experiência em uma abordagem integrada de gestão ESG, com especialização na dimensão ambiental e, em particular, na gestão do carbono, florestas e agronegócio, atendendo hoje empresas de setores como logística, siderurgia, mineração, papel e celulose e energia.
A atuação da Onearth ESG se estrutura em quatro dimensões complementares. A primeira é o MRV, voltado à mensuração e gestão das emissões de gases de efeito estufa em âmbito corporativo e setorial, incluindo inventários de emissões nos Escopos 1, 2 e 3, sistemas de monitoramento e reporte alinhados aos principais frameworks internacionais e às novas regulamentações climáticas. A segunda é a Análise de Ciclo de Vida (ACV), hoje muito associada à pegada de carbono, mas que vai além das emissões e permite compreender impactos ambientais, sociais e econômicos, ao longo de toda a cadeia produtiva — dimensão cada vez mais relevante para empresas que precisam demonstrar o perfil ambiental de seus produtos em mercados internacionais.
A terceira dimensão é a Onearth ESG, que reúne serviços de consultoria voltados à integração da agenda ESG nas organizações, incluindo desenvolvimento de estratégias climáticas, posicionamento institucional, interpretação regulatória e elaboração de reportes ESG. Nessa frente também são realizados diagnósticos de viabilidade técnica, ambiental e financeira de projetos de descarbonização e geração de créditos de carbono, além de processos de revisão técnica para validação e adequação dessas iniciativas às principais metodologias e diretrizes do mercado.
A quarta dimensão envolve o desenvolvimento de projetos de geração de créditos de carbono, especialmente quando há potencial técnico e econômico identificado nas operações ou ativos dos clientes, conectando a experiência do Grupo Plantar com projetos florestais à nova agenda de descarbonização corporativa.
O Brasil como protagonista
O Brasil tem tudo para liderar essa transição: o maior parque florestal plantado tropical do mundo, décadas de experiência em projetos de carbono, legislação florestal avançada, um vasto passivo de restauração a ser convertido em ativo climático — e, agora, um mercado regulado de carbono cujas regras estão sendo desenhadas sob os olhos do mundo, via COP30 em Belém.
A mensagem que o Brasil deve enviar vai além da Amazônia: é a de um país que planta florestas, restaura o que foi degradado, descarboniza indústrias pesadas e faz tudo isso com ciência, transparência e dados verificáveis. A floresta plantada não é apenas um negócio, é a infraestrutura climática do século XXI.