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Benone Magalhães Braga e Rosália Nazareth Rosa Trindade

Gerente Executivo e Gerente de Experimentação, respectivamente, da Aperam BioEnergia

OpCP83

Biochar: quando o carbono volta ao solo e transforma produtividade, clima e bioeconomia
Resíduos de biomassa convertidos em biochar passam a integrar estratégias de manejo capazes de melhorar a fertilidade do solo, fortalecer a resiliência dos plantios e contribuir para sistemas florestais de baixo carbono. A fertilidade do solo sempre esteve no centro da produtividade florestal. No entanto, diante de desafios cada vez mais evidentes — como as mudanças climáticas, a necessidade de maior eficiência no uso de fertilizantes e a busca por sistemas produtivos mais sustentáveis —, novas soluções passam a ganhar espaço no manejo das florestas plantadas.
 
Nesse cenário, o biochar surge como uma alternativa capaz de transformar resíduos de biomassa em um insumo estratégico para a construção de solos mais vivos, produtivos e resilientes. Mais do que um conceito amplamente discutido na literatura científica, o biochar começa a se consolidar como uma prática aplicada em sistemas produtivos. Quando utilizado em escala operacional, demonstra potencial para melhorar a estrutura do solo, aumentar a retenção de água e nutrientes e estimular processos biológicos essenciais ao desenvolvimento das plantas.

Produzido a partir da transformação térmica de biomassa, o biochar representa também uma forma eficiente de capturar carbono e devolvê-lo ao solo, ao mesmo tempo em que melhora suas propriedades físicas, químicas e biológicas. O resultado é um material capaz de fortalecer a fertilidade do solo, aumentar a resiliência dos sistemas produtivos e contribuir para estratégias globais de mitigação das mudanças climáticas.

Mais do que um insumo agrícola, o biochar vem sendo reconhecido como uma tecnologia estratégica capaz de integrar manejo do solo, economia circular e estratégias de carbono. Da biomassa ao carbono estável: o processo de pirólise. A base da produção de biochar está no processo de pirólise, uma tecnologia que permite transformar resíduos de biomassa em um material rico em carbono altamente estável.
 
Durante a pirólise, biomassa como madeira, cascas ou resíduos florestais é aquecida em um ambiente com baixa disponibilidade de oxigênio. Diferentemente da combustão tradicional — em que o carbono é rapidamente liberado na atmosfera na forma de dióxido de carbono —, a pirólise promove uma transformação controlada da matéria orgânica.
 
Nesse processo, parte da biomassa é convertida em gases e bio-óleo, enquanto uma fração sólida permanece na forma de biochar. Esse material apresenta uma estrutura altamente porosa, com elevada área superficial e grande capacidade de retenção de água e nutrientes.
 
Essa estrutura faz com que o biochar funcione como uma espécie de infraestrutura biológica do solo, melhorando o ambiente radicular das plantas e aumentando a eficiência no uso de nutrientes. Além disso, o carbono presente no biochar é altamente estável, podendo permanecer armazenado no solo por longos períodos.
 
Carbono no solo: fertilidade e clima na mesma equação
Quando incorporado ao solo, o biochar atua como um condicionador capaz de melhorar diferentes atributos do ambiente produtivo. Entre os principais efeitos observados estão o aumento da retenção de água, a melhoria da estrutura física do solo e a maior eficiência no aproveitamento de nutrientes. A elevada porosidade do material também cria microambientes favoráveis à atividade de microrganismos benéficos, contribuindo para processos naturais de ciclagem de nutrientes.

Em sistemas florestais, essas melhorias favorecem o crescimento radicular e ampliam a capacidade das árvores de explorar o perfil do solo. Em ambientes sujeitos a períodos de déficit hídrico, a maior retenção de água pode contribuir para reduzir o estresse das plantas e aumentar a estabilidade produtiva dos plantios.
 
Ao mesmo tempo, a incorporação de biochar promove o aumento do estoque de carbono no solo, posicionando a silvicultura como uma aliada importante na mitigação das mudanças climáticas.

Do viveiro ao campo: aplicações que fortalecem o desenvolvimento das plantas
O uso do biochar pode começar ainda nas etapas iniciais da produção florestal. Em viveiros, o material vem sendo avaliado como componente de substratos utilizados na produção de mudas.
 
Sua estrutura porosa contribui para manter água e nutrientes disponíveis por mais tempo, criando um ambiente mais equilibrado para o desenvolvimento das raízes. Mudas com sistemas radiculares mais estruturados tendem a apresentar maior vigor e melhor adaptação após o plantio, especialmente em ambientes sujeitos a estresses hídricos ou limitações nutricionais. No campo, o biochar pode ser aplicado durante o preparo do solo, em área total ou direcionado para linhas e entrelinhas de plantio antes das operações de subsolagem e incorporação.

As doses utilizadas variam conforme as características de cada área, considerando fatores como tipo de solo, histórico de manejo e objetivos de fertilidade. Em diferentes sistemas agrícolas e florestais, aplicações entre 40 e 100 toneladas por hectare têm sido adotadas, buscando promover melhorias graduais na qualidade dos solos e na eficiência do uso de nutrientes ao longo do ciclo produtivo.

Inovação aplicada: a experiência da Aperam BioEnergia
Na Aperam BioEnergia, o biochar vem sendo incorporado como parte de uma estratégia de inovação voltada à construção de sistemas produtivos mais eficientes e alinhados aos princípios da bioeconomia e da economia circular. A empresa produz biochar a partir de sua própria biomassa florestal e utiliza o material prioritariamente em suas operações, transformando resíduos do processo produtivo em um insumo capaz de melhorar a fertilidade dos solos e fortalecer a sustentabilidade dos plantios.
 
Até o momento, mais de 5.000 hectares de áreas florestais já receberam aplicação de biochar em operações conduzidas em escala operacional.
 
Além do uso interno, a estabilidade do carbono presente no biochar também abre oportunidades dentro do mercado ambiental. A incorporação desse material ao solo pode contribuir para a geração de créditos de remoção de carbono, que passam a integrar mercados voluntários voltados à compensação de emissões.

Bioeconomia em ação
A produção e utilização de biochar exemplificam de forma clara os princípios da bioeconomia moderna: transformar resíduos de biomassa em soluções capazes de gerar valor agronômico, ambiental e econômico. Ao devolver carbono ao solo e melhorar suas propriedades produtivas, o biochar cria uma ponte entre manejo florestal sustentável, regeneração do solo e mitigação climática.

Mais do que um novo insumo, ele representa uma mudança de perspectiva no manejo florestal. O carbono deixa de ser apenas uma emissão a ser reduzida e passa a ser um recurso capaz de regenerar solos, fortalecer a fertilidade natural dos sistemas produtivos e contribuir para a construção de florestas mais resilientes e produtivas.