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Anderson Rocha

Professor e Coordenador do Laboratório de Inteligência Artificial do Instituto de Computação da Unicamp

OpCP79

Inteligência Artificial: desafios e potencial

AUTORES:

Raphael Prates, Fernanda Andaló, Anderson Rocha, Leopoldo Lusquino Filho, Gabriel Bertocco e Ana Carolina Monari, todos Doutores do Laboratório de Inteligência Artificial da Unicamp

A automação está transformando o mundo do trabalho, e o setor florestal não é exceção. Sensores, drones e algoritmos agora fazem parte do manejo de florestas, da análise de riscos e da fiscalização ambiental. Mas o que isso significa para os profissionais da área? A tecnologia está substituindo ou apenas mudando as exigências do mercado? 

O debate sobre formação profissional e automatização não se resume à dicotomia “máquinas versus humanos”, mas exige uma reflexão sobre o que a Inteligência Artificial (IA) pode aprender e o que não pode. Enquanto algoritmos podem otimizar processos e melhorar previsões, o conhecimento humano continua sendo essencial, especialmente em um setor tão complexo e dinâmico como o florestal.

As técnicas avançadas da indústria 4.0 vêm sendo aplicadas à silvicultura para otimizar o manejo florestal e aumentar a eficiência, promovendo maior sustentabilidade por meio da sinergia entre IA, Internet das Coisas (IoT) e Robótica.
 
A integração de IA tem permitido lidar com a escassez de mão de obra ao aumentar a produtividade e a segurança, além de reduzir perdas. Exemplo disso é o uso de máquinas com visão computacional e robótica que realizam o corte e processamento da madeira com precisão. 

Tecnologias como Light Detection and Ranging (LiDAR) e drones revolucionam a silvicultura ao fornecer dados em tempo real para inventário, monitoramento da saúde das florestas, planejamento e manejo. 

Imagens de satélite permitem monitorar a cobertura vegetal e prever desastres como incêndios e surtos de insetos. Essas inovações tornam possível que trabalhadores deixem de focar em tarefas manuais e perigosas e passem a exercer funções muito mais estratégicas.

Embora a Inteligência Artificial esteja transformando o setor, isso não significa que os trabalhadores serão substituídos por máquinas. Na realidade, a tecnologia surge como uma ferramenta para auxiliar e complementar o trabalho humano, tornando algumas tarefas mais eficientes. Já existem modelos de Inteligência Artificial sendo empregados para monitorar e combater incêndios, identificar pragas, caracterizar áreas produtivas e otimizar o planejamento florestal. 

Com essa crescente integração, surge também uma demanda por profissionais capacitados que possam operar e desenvolver essas tecnologias. A formação profissional precisa acompanhar essa evolução, incluindo conhecimentos em aprendizado de máquina e análise de dados. Novas funções estão surgindo, como cientista de dados florestais, especialista em monitoramento ambiental e consultor em sustentabilidade e IA.

Para acompanhar essa tendência, é fundamental que profissionais invistam em capacitação e que instituições de ensino atualizem seus currículos para incluir disciplinas relacionadas à Inteligência Artificial. Ademais, a colaboração entre engenheiros florestais, cientistas da computação e analistas de dados pode potencializar ainda mais os benefícios da tecnologia para o setor.

Contudo, a adoção da IA também levanta questões éticas e desafios críticos, especialmente com a introdução de algoritmos na tomada de decisões no manejo florestal. Quem assume a responsabilidade quando um erro de cálculo resulta no corte indevido de uma área preservada? Como garantir a transparência das decisões automatizadas? 

O viés algorítmico é outra preocupação, já que dados históricos podem conter desigualdades e erros humanos que a IA tende a amplificar, impactando decisões de conservação e manejo e afetando comunidades locais de maneira desproporcional. O manejo florestal envolve não apenas técnica, mas também valores e disputas de interesse. Se a IA for responsável por definir estratégias de conservação e exploração, será que estamos realmente preparados para lidar com suas consequências? 

Além disso, há o risco da desumanização do conhecimento. Embora a IA processe grandes volumes de dados, ela não substitui a experiência sensível dos profissionais que lidam com as florestas diariamente. Existe um saber acumulado na prática que não pode ser reduzido a planilhas e redes neurais. O verdadeiro desafio não é apenas desenvolver boas tecnologias, mas garantir que elas complementem, e não substituam, a inteligência humana.
 
Outro aspecto relevante é a relação entre IA e sustentabilidade. A IA, especialmente os grandes modelos de linguagem como o Open.AI’s ChatGPT e Meta’s Llama demandam altos volumes de energia e recursos, tornando seu impacto ambiental um desafio. No entanto, a própria tecnologia tem promovido práticas mais sustentáveis, como a redução do uso de herbicidas em 61% no Brasil com Visão Computacional. Esse paradoxo impulsiona a busca por modelos mais eficientes, como o DeepSeek, que equilibra desempenho e consumo energético. Além disso, pesquisadores têm-se dedicado a estabelecer um entendimento comum sobre a relação entre IA e sustentabilidade. 
 
A discussão deve abranger tanto o uso de IA como ferramenta para práticas sustentáveis quanto a análise crítica dos impactos ambientais gerados pelos próprios sistemas de IA. Essas iniciativas evidenciam que há caminhos promissores para tornar a IA uma aliada mais eficaz na busca por um futuro sustentável, mas que ainda existe incerteza quanto à viabilidade de sua ampla aplicação em relação à sustentabilidade.

É preciso pensar também nos desafios sociais e legais que a IA apresenta. Seu uso indevido tem gerado preocupações com segurança, privacidade e fake news. Casos de deepfakes e falsificações já resultaram em fraudes financeiras e ameaças pessoais. Em resposta, regulamentações internacionais, como a 2024/1689 aprovada pela União Europeia em  2024, buscam garantir transparência, mitigação de viés e proteção da privacidade, proibindo práticas que possam ameaçar a democracia. O objetivo é garantir que seu uso seja feito de forma segura e ética.

Em conclusão, a IA tem muito a oferecer ao manejo florestal e diversas outras áreas, mas seus limites são os mesmos que os nossos: ela reflete nossos dados, decisões e vieses. O segredo não está em resistir à tecnologia, mas em moldá-la para que sirva aos objetivos certos. Para a formação profissional, o desafio não é apenas se adaptar à automação, mas aprender a guiar o uso da IA com senso crítico e responsabilidade. 
 
O futuro do trabalho não será sobre substituir pessoas por máquinas, mas sobre redefinir o que significa ser um profissional em um mundo cada vez mais automatizado. No setor florestal, essa equação é ainda mais crítica, pois florestas não são apenas números em um banco de dados, mas ecossistemas vivos, interligados e, acima de tudo, nossa responsabilidade.