A espécie humana evoluiu utilizando os recursos da natureza como forma de sobrevivência. O domínio do fogo, que foi essencial e base para praticamente todos os processos industriais que temos hoje, se deu inicialmente pelo uso de pequenos galhos e gravetos que, através de fricção entre eles e outros objetos como rochas, geraram calor. Isso possibilitou ao homem cozinhar alimentos para melhor absorção de nutrientes, aquecer-se do frio, afugentar predadores e forjar ferramentas. Portanto, é inegável que a biomassa está presente desde milhares de anos.
Mais recentemente, principalmente após a Revolução Industrial, temos usado fontes de calor com maior poder energético, mas que não se renovam na natureza. São os combustíveis não-renováveis de origem fóssil, principalmente o carvão mineral e o petróleo.
Os recursos da natureza vêm sendo utilizados como fonte inesgotável, especialmente pela praticidade de exploração, com redução de custos operacionais para maximização dos lucros.
A motivação mais proeminente foi a busca insaciável pela hegemonia, principalmente no século XX, em que duas grandes guerras mundiais ocorreram e impulsionaram a indústria do aço, liga de relevante importância que mede o indicador de desenvolvimento econômico de um país.
Historicamente, os processos metalúrgicos usam o carvão mineral como principal ator para, por exemplo, a transformação bem-sucedida do minério de ferro em aço. Já o petróleo foi, durante mais de um século, o grande transformador e potencializador do desenvolvimento tecnológico, sendo usado como principal fonte de energia no mundo durante a Revolução Industrial.
Paralelamente, novas formas de concentrar a energia da madeira e de outras biomassas foram sendo desenvolvidas, por meio de processos termoquímicos como a pirólise, que tem como produto principal o carvão vegetal. São processos mais sustentáveis, considerando-se que o ciclo do carbono é muito menor que os combustíveis fósseis. A captura de carbono ocorre durante o crescimento da planta.
Nesse contexto, o Brasil ganha destaque, liderando a maior produção de carvão vegetal do mundo. O carvão vegetal, principal bioproduto com alta densidade energética, passa a ser visto como alternativa mais sustentável de processos metalúrgicos. Esse cenário ganha mais importância devido ao grande desafio de neutralização do carbono emitido na atmosfera do planeta. Surgem então novas necessidades, que tornam este bioproduto da madeira um grande aliado para substituição, mesmo que parcial, dos tradicionais combustíveis fósseis usados nos processos industriais.
É o caso, por exemplo, da pelotização de minério de ferro, um processo de aglomeração que tem como produto a pelota de minério de ferro, utilizada em fornos de redução direta e altos-fornos. Historicamente, esse processo utiliza carvão mineral, coque de petróleo, gás natural e óleos pesados para produção das pelotas nos fornos, sendo todos considerados combustíveis não-renováveis.
A Samarco, buscando aprimorar o desenvolvimento de seus processos através do uso de fontes renováveis na pelotização, vem desenvolvendo estudos para uso de combustíveis renováveis focados nos bioprodutos da madeira, como o bio-óleo e o carvão vegetal.
Por meio de parcerias com empresas como a Aperam Bioenergia, foi possível o desenvolvimento de testes em laboratório e industriais para consumo desses bioprodutos da madeira. Os testes de bancada e industriais do bio-óleo, por exemplo, foram iniciados em 2024 em menor escala e consumiram cerca de 220 toneladas do bioproduto, substituindo o gás natural parcialmente nos fornos de pelotização. Em 2025, houve evolução para um consumo em maior escala, com mais de 2,4 mil toneladas sendo consumidas. O objetivo é a substituição parcial, até 2032, do gás natural consumido nas pelotizações da Samarco.
Várias barreiras técnicas foram vencidas para que os bioprodutos estejam em condições ideais de consumo. A parceria com outras empresas foi essencial nesse aprimoramento, a exemplo da WXO Engenharia de Processos Customizados, fabricante de biorefinarias de Paulínia-SP, que trabalhou em 2025 com a Samarco para assegurar mais estabilidade e segurança no uso do bio-óleo. Na parte de combustíveis sólidos consumidos na pelotização, também houve mudanças significativas.
Em 2022 e 2023, estudos de laboratório e testes industriais começaram a ser conduzidos com objetivo de usar o carvão vegetal nas pelotizações. Desde então, a Samarco vem buscando substituir sua matriz energética de forma gradativa, e não apenas com a utilização do bio-óleo. Em 2025, a companhia substituiu industrialmente 15% da matriz de combustíveis sólidos dos fornos de pelotização (onde predomina o coque de petróleo) por finos de carvão vegetal, um coproduto de outro processo industrial.
Essa iniciativa está alinhada ao compromisso da Samarco de aplicar na prática o conceito de “economia circular” e possibilitar uma mineração cada dia mais sustentável. O projeto vem contribuindo para emissões neutras de cerca de 4,5 kgCO2 eq- por tonelada de pelota produzida. Isso representou, no ano de 2025, cerca de 49 mil toneladas de dióxido de carbono que deixaram de ser emitidas por fontes fósseis.
O Brasil tem uma extensão territorial invejosa, que permite destacá-lo em relação à produção de biomassa, além de uma grande geração de resíduos agrícolas, que hoje já são vistos como coprodutos de alto poder energético, podendo ser convertidos em bioprodutos.
O País possui também um clima favorável ao plantio de culturas como eucalipto em áreas degradadas, com a possibilidade de construção de florestas que permitam grande absorção de dióxido de carbono da atmosfera, podendo ser utilizadas posteriormente como fonte energética. Há um grande potencial no agronegócio, que gera toneladas de biomassa agrícola, que podem ser utilizadas em diversos processos.De fato, trata-se de um cenário muito favorável para a construção de uma rede de produção de bioprodutos e o fortalecimento da cadeia de fornecimento e de logística, visando atender aos processos industriais dos maiores players do mercado.
Por outro lado, há um grande “dever de casa” a ser feito, que envolve não apenas nós, consumidores de bioprodutos, mas também mudanças de cultura e perspectiva a respeito da biomassa e a criação de políticas públicas que viabilizem infraestrutura logística e subsídios financeiros para esse cenário cada dia mais promissor.
Para uma transição para matriz energética mais limpa e circular bem-sucedida, as soluções aplicadas precisam de investimentos não só em pesquisa, desenvolvimento, inovação e tecnologia, como também de parcerias entre governos, órgãos reguladores e toda cadeia de valor, a fim de que atuem de forma coordenada, compartilhando responsabilidades para transformar inovação em impacto real. É a jornada colaborativa que vai assegurar maturidade e viabilidade para as soluções, atingindo assim a superação dos desafios socioambientais atuais.