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Bibiana Ribeiro Rubini

Diretora de Inovação e Bioeconomia da CMPC

OpCP83

Diversificação e a formatação do futuro dos materiais renováveis
O setor de base florestal global parece viver um cenário de bifurcação estratégica, onde a competitividade geográfica dita o ritmo da inovação. Ao contrário do que se possa imaginar, na América Latina a febre da biorrefinaria parece ter esmaecido enquanto investimento em inovação para ganho de escala e eficiência operacional aumenta. 
 
Isso porque a capacidade de produzir celulose com produtividade florestal inigualável e ativos industriais de escala mundial levaram a América do Sul à vanguarda e liderança no setor em custos operacionais e eficiência em escala. Aqui ser cada vez mais eficiente no core business, mais que uma meta operacional, é a condição de existência em um mercado global cada vez mais acirrado.
 
No hemisfério norte, a indústria de celulose enfrenta desafios estruturais que diminuem sua capacidade de competir no custo da fibra. Dados da FAOSTAT (Food and Agriculture Organization of the United Nations) e do Fastmarkets RISI demonstram que os preços globais da madeira subiram entre 30% e 35% desde 2021, um fenômeno impulsionado por impactos climáticos. 
 
Na América do Norte, o impacto tem sido particularmente dramático. No Canadá, a combinação de incêndios florestais recordes, infestações de pragas e restrições de colheita em terras públicas provocou o fechamento de dezenas de fábricas de celulose e papel nos últimos três anos. No sudeste dos Estados Unidos, embora a produtividade seja maior que na Europa, a competição acirrada pela biomassa para bioenergia e a falta de investimento nos ativos industriais centenários têm pressionado as margens. 

Na Europa, os fechamentos de fábrica foram acelerados não apenas por custos de energia, mas pela escassez de fibra local de qualidade, forçando a importação de madeira e elevando os custos operacionais acima do nível de competitividade global. Em contrapartida, marcos regulatórios e incentivos robustos, como o European Green Deal (2019) e o programa Horizon Europe (2021-2027), direcionaram o capital e a inovação europeia para a busca de novos fluxos de receita (biomateriais e bioquímicos), justamente porque a produção tradicional de celulose de mercado perdeu competitividade frente ao potencial sul-americano. 

E se trouxermos para esse tabuleiro a Ásia – especificamente a China – surge um competidor agressivo que combina escala industrial com uma busca por autonomia de fibra. A China apresenta um cenário de "teto teórico" produtivo doméstico de florestas. Embora o país tenha expandido seus plantios de rápido crescimento (eucalipto), ainda existem barreiras para sua autossuficiência, então a China opera em duas frentes: a importação massiva de celulose da América Latina e a verticalização regional no Sudeste Asiático.
 
Se consolidarmos todas essas informações, por um lado temos a América Latina fortalecida por sua potência florestal e com alta demanda de celulose do mercado chinês e, por outro, o hemisfério norte desafiado na competitividade e com incentivos para diversificar. 

Diante desse cenário, como devemos encarar o desenvolvimento de bioprodutos e biomateriais por aqui? Minha visão é que a inovação em biorrefinaria deve ser tratada como uma via lateral de diversificação que serve como um seguro contra as incertezas de longo prazo. Se não é vital o investimento em bioeconomia no curto prazo, no longo prazo não sabemos o que poderá, eventualmente, nos tirar do mercado ou causar uma disrupção no consumo de fibras tradicionais. Portanto, ter um portfólio de produtos renováveis em desenvolvimento é uma forma de mitigar riscos de mercado, antecipar transições além de capturar oportunidades em cadeias de valor totalmente novas.
 
No entanto, é fundamental manter a hierarquia estratégica: a bioeconomia não é a prioridade imediata frente ao cenário econômico. A última década de P&D em biorrefinaria nos ensinou que podemos desenvolver e substituir inúmeros químicos e materiais a partir da floresta plantada, mas de maneira geral: 
1) não são soluções plug and play, muitas demandam alterações em cadeias de valor estabelecidas e otimizadas; e 
2) não basta ser uma solução bio-basada/sustentável, a performance e o custo são fatores decisórios prioritários. 

Ao entrarmos no mundo de bioprodutos ou bioquímicos, mergulhamos em cadeias de valor cujos desafios técnicos, normativos e comerciais não dominamos plenamente. Não temos o full picture dos portfólios e variedades de produtos, e o risco de subestimar essas barreiras é alto. Por isso, o aprendizado acelerado deveria vir da associação estratégica entre o nosso setor, fornecedores de tecnologia e clientes.

Esse modelo de parcerias e inovação surge como o caminho para explorar essas vias laterais, permitindo que as empresas florestais forneçam a matéria-prima e o conhecimento industrial para validar novas aplicações e tecnologias junto a esses parceiros e criar os canais operativos e comerciais que hoje não estão completamente prontos. Esse modelo reduz a exposição ao risco tecnológico, acelera o aprendizado além evitar o desenvolvimento de produtos tecnicamente perfeitos, mas comercialmente inviáveis.

A essência da estratégia para os próximos anos reside em maximizar o valor de cada hectare de floresta na produção de celulose sem perder de vista o desenvolvimento dos potenciais novos mercados. O desafio executivo é estar preparado para garantir que essa diversificação possa ser implementada em escala e ocorra de forma integrada e com sinergia com as operações industriais, funcionando como uma fonte receita que aumenta a resiliência, principalmente de ativos depreciados. 

Perpetuar a sustentabilidade é um compromisso com a perenidade do negócio. Se a Europa foi estimulada a desenvolver bioprodutos pela perda de produtividade, nós temos o privilégio de avançar por escolha. Mas não será a qualquer custo. Entre as lições aprendidas, sabemos que qualquer investimento em novos bioprodutos será medido, testado e constantemente comparado à rentabilidade e ao impacto da produção de celulose. E atualmente o sucesso da inovação corporativa não é medido pela quantidade de ideias interessantes geradas ou projetos-piloto inovadores lançados, mas sim pela forma como a inovação se traduz em resultados comerciais tangíveis e vantagens competitivas para o negócio.

O futuro dos materiais renováveis está sendo escrito agora, e nossa liderança depende da capacidade de sermos, simultaneamente, os melhores produtores de celulose do mundo e os arquitetos de um plano de diversificação que garanta nossa relevância por muitas décadas.