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Sebastião Renato Valverde e Jhonatan Nolasco Nascimento

Professor de Engenharia Florestal da UF-Viçosa e Doutorando pela UF-Uberlândia, respectivamente

OpCP83

Resíduos florestais na substituição de derivados de fontes fósseis
O setor florestal petrificou-se na visão de que parte da biomassa é elemento intocável da paisagem produtiva. Entretanto, aquilo que hoje permanece no campo como resíduo pode representar o elo perdido entre a produção florestal e a consolidação das biorrefinarias, capazes de converter biomassa em energia, insumos industriais e fertilidade regenerativa. Assim, essa questão já não é só ecológica ou operacional, é totalmente estratégica.
 
A discussão sobre manter ou remover resíduos florestais raramente é analisada sob a ótica da eficiência sistêmica da cadeia produtiva. Por décadas, cascas, galhos e ponteiros são associados quase exclusivamente à proteção do solo e à reposição de nutrientes. Todavia, o avanço tecnológico da colheita mecanizada e a transição para a bioeconomia exigem revisitar esse paradigma.
 
Nos sistemas de colheita e transporte de toras curtas voltados à produção de celulose, a mecanização intensiva promove o descascamento no campo e gera frações lenhosas que não seguem para o processo industrial. Limitações operacionais e faixas de diâmetro fazem com que parte da biomassa permaneça dispersa na área colhida, muitas vezes levando anos para se decompor, dificultando a movimentação das máquinas e pessoas e reduzindo a eficiência do manejo e das operações florestais subsequentes à colheita. 
 
Já os sistemas de colheita de fustes são adotados para segmentos industriais que consomem a madeira, predominantemente, como fonte energética. A diferença não é apenas conceitual, mas econômica: o sistema de toras curtas apresenta custos próximos de US$ 8,34/m³, enquanto, sistemas de fuste, de US$ 4,45/m³, diferença de quase US$ 3,90/m³ associada ao destino dado aos resíduos.
 
A biomassa deixada no campo representa valor energético expressivo. Considerando que a casca corresponde a cerca de 12% da massa da madeira, seu aproveitamento pode gerar economias superiores a R$ 23 mil/ha quando substitui combustíveis fósseis. Em escala industrial, estimativas apontam ganhos da ordem de US$ 50 milhões anuais para uma planta de 2 milhões de toneladas de celulose, enquanto o custo adicional de transporte dessa fração permanece reduzido, próximo de R$ 5,66 por tonelada. 
 
O que antes era tratado como resíduo revela-se um ativo energético subutilizado. Em termos industriais, trata-se de uma diferença que redefine decisões operacionais. A remoção seletiva da biomassa lenhosa, preservando a serapilheira e as frações finas responsáveis pela proteção do solo, permite conciliar sustentabilidade ambiental, eficiência operacional e geração de energia renovável. Essa mudança se alinha com transformações nas fábricas mais recentes do segmento de polpa celulósica, nas quais a energia deixa de ser insumo externo e passa a integrar a cadeia produtiva.
 
Essa integração energética não ocorre por acaso. Ela é resultado direto do avanço tecnológico que permite converter resíduos florestais em diferentes vetores energéticos dentro da própria planta industrial. Nesse contexto, a consolidação das biorrefinarias passa, necessariamente, pelo domínio das rotas de conversão termoquímica da biomassa, direcionando os avanços para processos como pirólise e gaseificação.

A considerar as condições de operação, é possível direcionar a proporção dos produtos obtidos nesses processos. Em temperaturas moderadas e ausência de oxigênio, a pirólise favorece a produção de bio-óleo e biocarbono. À medida que a temperatura se eleva e o processo evolui para condições de gaseificação, intensifica-se a formação de gases combustíveis ricos em monóxido de carbono e hidrogênio, conhecidos como syngas. Na prática industrial, essas rotas não são processos isolados, mas regimes de um mesmo processo, ajustáveis por parâmetros como temperatura, tempo de residência e razão equivalente. Essa flexibilidade permite adaptar a conversão da biomassa às necessidades energéticas ou materiais da fábrica.

Nesse contexto, a catálise assume papel decisivo. Catalisadores aplicados à pirólise promovem o craqueamento de compostos pesados e aumentam a estabilidade do bio-óleo e poder calorífico.  Na gaseificação, reduzem a formação de alcatrões e melhoram a qualidade do gás produzido, elevando sua eficiência energética. A conversão da biomassa aproxima-se, assim, de um verdadeiro refino químico renovável, no qual diferentes produtos podem ser priorizados conforme a estratégia industrial, avanço já impulsionado por centros de pesquisa brasileiros na área de catálise, na transição para uma bioeconomia de base florestal. Dessa forma, os resíduos florestais podem ser convertidos em combustíveis capazes de suprir demandas térmicas do processo, reduzindo a dependência de combustíveis fósseis e ampliando a autonomia energética das fábricas.
 
Apesar de o poder calorífico do gás natural (35 a 38 MJ/m³) ser maior do que do syngas (4 a 7 MJ/m³), este pode competir diretamente com aquele, haja visto ser produzido a partir de resíduos florestais que configura estratégia de autonomia energética, previsibilidade de custos e redução estrutural de emissões. Quando produzido in situ, diminui a dependência de infraestrutura externa e transforma biomassa, antes subutilizada, em ativo estratégico.
 
Entre os produtos obtidos, o biocarbon estabelece a conexão final entre indústria e floresta. Com elevada estabilidade e alta capacidade de troca catiônica, contribui para a retenção de nutrientes no solo e pode reduzir a necessidade de fertilizantes minerais. Além dos benefícios agronômicos, representa forma estável de sequestro de carbono, permitindo sua inserção em mercados voluntários de crédito. Ao imobilizar carbono por longos períodos no solo, pode gerar ativos ambientais comercializáveis e agregar nova fonte de receita à cadeia florestal. 

O debate sobre resíduos florestais deixa, assim, de opor conservação e produção. A biorrefinaria demonstra que é possível integrar ambas, transformando sobras operacionais em elemento estratégico para a descarbonização industrial e para a construção de uma bioeconomia baseada no aproveitamento integral da biomassa.

Talvez o desafio do setor florestal já não seja produzir mais madeira, mas compreender que cada fração da árvore carrega energia, carbono e valor tecnológico ainda subutilizados. Quando a biomassa deixa de ser resíduo, passa a ser recurso, a floresta amplia seu papel. Não apenas sustenta a indústria, mas também a alimenta energeticamente e regenera o próprio solo. É nesse movimento do campo à fábrica e de volta ao campo que se estabelece a nova fronteira do setor, situada exatamente entre o chão da floresta e a chama da indústria.