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Reginaldo Gonçalves Mafia

Gerente de P&D em Manejo Florestal da Bracell-BA

OpCP83

O desafio crescente para o desenvolvimento e a seleção de novos clones de eucalipto
A silvicultura brasileira é majoritariamente clonal. Como sabemos, o desenvolvimento da clonagem do eucalipto em larga escala, a partir da década de 1970, foi o principal propulsor tecnológico para a indústria de madeira do País. Embora nem todos saibam, o desenvolvimento da clonagem foi motivado pela ocorrência de uma doença: o cancro do eucalipto, causada pelo fungo Cryphonectria cubensis (Chrysoporthe cubensis). 
 
A seleção de indivíduos resistentes a esta doença, com alto potencial de crescimento e sua multiplicação por propagação vegetativa, permitiu estabelecer plantios uniformes com clones adaptados e de alta produtividade. Em função disso, em 1984, Edgard Campinhos Jr. e Yara Ikemori, juntamente com Leopoldo G. Brandão e Ney M. dos Santos, da antiga empresa Aracruz Florestal, foram os primeiros brasileiros a receber o Prêmio Marcus Wallenberg (Marcus Wallenberg Prize).
 
O prêmio foi concedido pelo trabalho pioneiro na propagação vegetativa de clones de eucalipto em larga escala. Mais tarde, com o desenvolvimento das técnicas de cruzamentos controlados, foi possível desenvolver clones ainda mais produtivos e resistentes, por meio da hibridação entre espécies de características complementares, incluindo, por exemplo, as espécies E. grandis (alto potencial de crescimento) e E. urophylla (resistência à doença e maior densidade da madeira).
 
A partir desse marco inicial, vários programas de melhoramento genético foram estabelecidos. Com o desenvolvimento de clones mais produtivos e de melhores técnicas de manejo, além da maior atenção para a qualidade florestal, o incremento em produtividade ocorreu naturalmente. 
 
Porém, mais recentemente, o desenvolvimento e a estabilidade dos novos clones têm sido cada vez mais difíceis, o que tem refletido na estagnação da produtividade dos plantios de eucalipto. 

Diante desse cenário, surgiram vários questionamentos ao longo do tempo. Alguns pesquisadores acreditam que o máximo de produtividade da cultura foi atingido. Outros, entretanto, grupo do qual faço parte, defendem que ainda podemos aumentar a produtividade. Em virtude disso, será necessário quebrar alguns paradigmas técnicos e repensar o que fazer frente às mudanças importantes ocorridas nas últimas décadas.

Para embasar esta defesa, é importante considerar que no início dos programas de melhoramento genético era necessário selecionar clones resistentes a uma doença principal (cancro do eucalipto) e de alta produtividade (IMA). Com o passar do tempo, ocorreu um aumento expressivo das características desejáveis durante a seleção. Logicamente, quanto mais características de interesse, menor é a probabilidade de sucesso na seleção. 
 
Além do mais, muitas dessas características são controladas por genes que estão em sentidos opostos, ou seja, a seleção e priorização de uma determinada característica reduzem a variabilidade genética na população de melhoramento e, consequentemente, a chance de seleção da outra característica de interesse. 

Por exemplo, é muito comum, em melhoramento de plantas, selecionar com foco em produtividade e reduzir a variabilidade e a frequência de indivíduos resistentes às pragas e doenças. Nesse caso, é importante mencionar que o aumento das características alvo, ou seja, de interesse durante a seleção, ocorreu por motivos inerentes da expansão florestal, por mudanças dos ambientes de produção, pela ocorrência de novas pragas, doenças e distúrbio fisiológico, além da necessidade de melhor qualidade da madeira.
 
Com a expansão das áreas florestais, tornou-se necessário selecionar clones de eucalipto adaptados às mais diferentes condições de solo e clima, incluindo recentemente o bioma Cerrado, com solos arenosos e baixa disponibilidade hídrica. De forma geral, ainda não há populações de melhoramento desenvolvidas para as novas fronteiras florestais, sendo que clones selecionados em outras regiões, normalmente, apresentam pouca adaptabilidade a estas novas condições. Além do mais, é importante lembrar que as variações do clima estão cada vez mais frequentes. 
 
Sendo assim, os novos clones precisam ser selecionados para uma amplitude muito grande de variações de espaço temporal, de solo e de clima. Estes novos materiais genéticos precisam ainda, prioritariamente, apresentar resistência a uma série de pragas e doenças, de difícil controle e que podem causar sérios danos, além do distúrbio fisiológico, doença abiótica que praticamente inviabilizou o plantio de vários clones de mercado.
 
Com o aumento dos fatores restritivos (pragas, doenças e distúrbio fisiológico) e das variações de clima, quase diretamente ocorreu uma redução da estabilidade, tornando os novos clones inadequados em curto espaço de tempo. E por último e não menos importante, com o aumento da capacidade industrial e o desenvolvimento de novos produtos a partir da celulose, naturalmente ocorreu um incremento das exigências de qualidade da madeira. 

Assim, além da exigência quanto a determinados valores de densidade da madeira, outras características passaram a ser utilizadas como critérios de seleção clonal. Ao considerar todos estes fatores, não é difícil entender que o desafio de selecionar novos clones aumentou, significativamente, ao longo do tempo. 
 
Mesmo com o desenvolvimento de novas técnicas e estratégias de melhoramento, o lento desenvolvimento e a baixa disponibilidade no mercado de novos clones têm sido fatores limitantes para expansão e aumento significativo da produtividade. Mas diante desse cenário, o que poderá ser realizado de diferente? 

Considerando que os desafios aumentaram e são complexos, talvez tenha chegado o momento de repensar alguns aspectos do melhoramento. Para isso, algumas hipóteses podem ser testadas, considerando temas interessantes, como: 

1) intensidade (número de cruzamentos por geração; quantidade de testes de progênie e clonal); 
2) enriquecimento do número de espécies e procedências; 
3) formação de novos híbridos; 
4) intercâmbio (troca de clones e genitores entre empresas e regiões); 
5) seleção massal pelo menos para algumas características; 
6) otimização das características de interesse; 
7) testes seriados no tempo; 
8) alocação clonal; 
9) avaliação de plasticidade clonal; 
10) mini populações de melhoramento e compostos clonais; entre outros.

As empresas investem, de forma consistente, recursos significativos em melhoramento genético. No entanto, além dos recursos humanos e financeiros, talvez tenha chegado o momento de intensificar as inovações nesta área tradicional da ciência florestal. 

Acredito que é importante trazer o inconformismo e a inquietação, além de maior abertura para novas ideias. Vale lembrar que o desenvolvimento de novos clones de eucalipto, por mais demorado e dispendioso que possa parecer, ainda é a principal e mais importante estratégia para alavancar a produtividade florestal.