Paulo Henrique Groke Junior

Diretor de Sustentabilidade no Instituto Ecofuturo

Op-CP-44

Um mosaico da história
Na década de 1980, já existia um Código Florestal brasileiro, mas era como se não existisse. A questão das mudanças climáticas globais começava a ser discutida por um punhado de “desvairados” pesquisadores. As macroextinções da biodiversidade eram cinco e não as seis atuais. A falta d’água era coisa de países distantes. O conceito da sustentabilidade, forjado em 1972, ainda engatinhava. O marco legal do licenciamento ambiental havia nascido no primeiro ano da década. 
 
A certificação florestal ainda levaria mais uns quinze anos para vir ao mundo. O antropoceno não era uma era. No entanto, numa daquelas conjugações de fatores que acabam por determinar o rumo dos acontecimentos de sucesso, as empresas de base florestal no Brasil, impulsionadas por comportamentos de inovação e dinamismo, pela formação de equipes de olhar técnico e operacional acurado, pelo comprometimento de universidades e institutos de pesquisa com o avanço da ciência e, finalmente, por incentivos fiscais federais para ampliação da base florestal, acabaram por dar o passo que as transformaria na vanguarda socioambiental do setor econômico.
 
A silvicultura brasileira é referência mundial por sua tecnologia e produtividade. Sua história de sucesso é sistematicamente abordada, mas o processo de como o setor construiu seu componente de sustentabilidade nem sempre é claro. É esse, portanto, o objeto deste artigo. Aconteceu mais ou menos assim...
 
Passada a década de 1970 e início dos anos 1980, nos quais a implantação de qualquer atividade de escala exigia anterior desmatamento, hoje eufemisticamente denominado de conversão (te converto em atividade econômica digna,  ó vegetação infiel!), ficou evidente que a configuração regional e topográfica de algumas regiões que receberam a silvicultura possibilitou a manutenção de importantes remanescentes florestais nativos, notadamente nas fisionomias do bioma Mata Atlântica.

Essa condição acabou por tornar as empresas de base florestal, mais do que as de qualquer outro setor da economia, fiéis depositárias de um patrimônio biológico de inestimável valor. Ainda na década de 1980, estimuladas por um conceito florestal advindo da academia, algumas empresas criaram seus departamentos de Ambiência, embriões das atuais áreas de Sustentabilidade. Esses setores tentavam dar conta de trazer a pauta da conservação e da proteção florestal para os ambientes de planejamento e operação. Para muito além dos naturais embates entre o “planta não planta” e o “corta não corta”, havia uma estimulante abertura para discussões internas e de compartilhamento técnico entre empresas do segmento.

 
Ação ainda impensável para outros setores da economia, algumas organizações começaram a realizar seus primeiros inventários sobre a biodiversidade que ajudavam a conservar. Os levantamentos de avifauna se tornaram a porta de entrada para muitas outras pesquisas. É interessante ressaltar que esses trabalhos não estavam relacionados às condicionantes de processos de licenciamentos ou às exigências de certificação: aconteciam porque se julgava interessante o reconhecimento do impacto das plantações florestais sobre esse grupo da fauna. Os anos 1990 testemunharam a introdução do conceito do cultivo mínimo e do manejo integrado de pragas e doenças, estratégias que ajudaram na conservação do solo, no menor uso de defensivos e na economia de recursos. 
 
Importantes programas de educação ambiental também foram iniciados na década. Ainda nos anos 1990, parte das empresas começou a dar mais atenção à restauração de áreas degradadas e a incorporar ajustes ao layout de ocupação de plantios mais antigos, adequando espacialmente as hoje famosas Área de Preservação Permanente – APPs, e Reservas Legais – RL.

Cabe aqui um pequeno atalho para os dias atuais: somente cerca de duas décadas depois, impulsionado pela discussão do novo Código Florestal Brasileiro – CFB, o tema passou a compor a agenda do setor agropecuário. Nas extensas, desgastantes e por vezes desencorajadoras discussões que caracterizaram a construção do novo CFB, o setor florestal contribuiu significativamente para mostrar que a dicotomia entre produção e conservação não faz sentido.

 
Retornando à história...
APPs e RLs em campo ajudam a efetivar a conectividade entre áreas naturais e aumentam a permeabilidade da paisagem, permitindo fluxo gênico, fundamental para a conservação da biodiversidade. Estabeleciam-se paisagens compostas por ativos naturais, quer representados pelos plantios florestais, quer pela vegetação nativa. Para engenheiros florestais, agrônomos e biólogos, trata-se de excepcional condição para a implementação dos conceitos da Biologia da Conservação, formulados nos EUA no final da década de 1970.
 
Quando se fala nisso, alguns colegas pensam imediatamente em “mosaicos florestais”. No entanto é bom que se considere que o conceito de mosaico florestal é muito mais complexo do que uma bonita foto aérea na qual plantios e matas nativas compõem uma paisagem verde. A expressão maior do mosaico pressupõe, além dos citados belos elementos da foto, diversidade de materiais genéticos e de estágios silviculturais. Em jogo, não apenas a conservação da biodiversidade, mas a dinâmica hidrológica e a segurança das plantações contra pragas e doenças.
 
Em meados da década de 1990, derivado de intensas discussões, surge o Princípio 10 do FSC – Forest Stewardship Council, dando o pontapé inicial para o desenvolvimento dos programas de certificação das plantações florestais. Em 2005, veio o Diálogo Florestal, iniciativa que colocou na mesma mesa empresas florestais e organizações ambientalistas. Além da aproximação que possibilitou a apresentação e discussão de temas de interesse, o programa resultou em ganho de confiança entre as partes e inspirou atores do setor agropecuário.
 
Outras plataformas de discussão, como a New Generation Plantations – NGP, também são criadas para promover trocas sobre a contribuição das florestas plantadas para a economia, comunidade e ambiente. Voltando às APPs e RLs, empresas, agora também motivadas por mecanismos legais ou de certificação, vêm investindo cada vez mais em processos de restauração florestal. Essa restauração é conduzida por meio da regeneração natural, enriquecimento/adensamento e plantio convencional, de acordo com as características locais. Chegamos aos dias atuais com um grande legado, senso de responsabilidade e atenção às oportunidades.
 
O iNDC brasileiro – intended Nationally Determined Contribution, apresentado na COP 21, estabelece que 12 milhões de hectares deverão ser restaurados até 2030. Se um dia o Brasil romper com a nefasta tradição de não cumprimento das metas que assume, uma nova economia florestal irá se formar, e a ela estarão associados todos os aprendizados colecionados pelo setor florestal brasileiro. 
 
Por exemplo, o Instituto Ecofuturo faz a gestão do Parque das Neblinas, reserva florestal da Suzano Papel e Celulose, criado em 2004 pela conjunção de todos os componentes da história acima relatada. Além de proteger fragmentos de alto valor de conservação para a Mata Atlântica, parte considerável dos seus 6 mil hectares, sob o dossel de antigos plantios de eucalipto, é alvo de um processo de regeneração natural da vegetação nativa. No Parque, também serão implantados modelos de restauração de uso misto, integrando manejo e conservação.
 
Essa experiência do Ecofuturo, vale ressaltar, está sendo incrementada e sistematizada, de maneira que possa ser replicada, e seus respectivos aprendizados, compartilhados. A importância da sistematização das experiências colecionadas pelo setor é reforçada por dados recém-divulgados no evento “Oportunidades Econômicas no Contexto das Mudanças Climáticas”, organizado pela Coalizão Brasil, Clima, Florestas e Agricultura. Estudos da Agroicone indicam que o custo da regeneração natural pode ser até dez vezes mais baixo do que o da restauração induzida. Os números indicam também que a restauração, no formato de consórcios com espécies nativas ou exóticas, como eucalipto, poderá ser um negócio promissor, além do esperado retorno na forma de serviços ecossistêmicos.
 
São desafios e oportunidades que precisam ser encarados com o mesmo vigor, comprometimento, técnica e paixão que nos trouxeram até aqui. Marcos legais adequados, segurança jurídica, desburocratização de processos e políticas de incentivo são bem-vindos. Como podemos ver, a nossa história florestal ainda terá muitos outros capítulos.